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                                                           ORIGEM DA PALAVRA "BONDE"

    A origem da palavra bonde, entre nós, segundo transcrito na Enciclopédia EPB Universal – Editor Arnaldo Batista Marques de Soveral – Editora Pedagógica Brasileira S?A – São Paulo – 1969, é explicada por Dumlop, da seguinte forma: na América do Norte, "bond" é o título de dívida emitido por uma empresa criando obrigações de fazer alguma coisa ou pagar certa quantia; os bondes, primeiramente em New York, foram distribuídos por uma empresa denominada Botanical Garden. Nesta época, fins do século XIX, como inexistisse naquela cidade níqueis que somente surgiram em 1872 e com os quais os passageiros pudessem retribuir em espécie, o serviço prestado por aquela empresa deixou ambos em grandes dificuldades. Foi assim que a empresa a fim de receber as respectivas passagens, passou a emitir pequenos cupons em grupos de cinco que serviam de pagamento por parte dos usuários os quais adquiriam na empresa a quantidade necessária ao seu uso, resolvendo-se então, o problema do troco. Os cupons denominavam-se "bonds". Assim, chegou até nós essa palavra como bonde e seu significado foi estendido ao próprio veículo.

 

 

                                                      O BONDINHO DE BURRO

    Pertencentes a Linha Circular Suburbana de Tranways, com percurso entre os subúrbios de Madureira e Irajá, os bondes puxados a burro funcionaram no Rio de Janeiro até 1928. A concessão foi outorgada em 1905 ao Engenheiro Manuel Antonio da Silva Reis, Coronel Júlio Braga e ao barão de Santa Cruz, pelo Decreto 1054 de 21/ll/1905, contrato firmado com a Prefeitura em 28/9/1906.

Antes desta concessão outorgada em 1905, houve um Decreto do Poder Executivo Municipal nº742 de 20/3/1900, concedendo aos cidadões Alberto Paca e ao Capitão João Antonio Teixeira Barroso ou a empresa que organizaram, permissão para construção , uso e gozo de uma linha ferro carril de bitola estreita , partindo da Estação de Madureira e terminando no Porto de Irajá. Não demorou muito pois logo no mês seguinte os concessionários já estavam procurando negociar no exterior a venda e transferência da linha . Nesse sentido, firmaram em 19/5/1910 contrato com a firma "Atlas Investiment Corporation Ltda", de Londres , ficando esta autorizada a organizar, como de fato organizou, uma companhia com o nome de "Rio de Janeiro Suburbana Tranway Limited". Mesmo não tendo verificado a transferência da concessão para esta Empresa, nem tão pouco houvesse ela obtido a indispensável autorização de funcionamento, procurou manter a concessão em vigor, enviando os empreiteiros Thompson e Howston, de Paris, para executarem as obras necessárias `a inauguração do Tráfego a fim de evitar que a concessão caducasse. Nesse ínterim, surgiram várias questões possessórias propostas pela "Cia Light", fundada no seu contrato de unificação de bondes de 06/11/1907. Todavia, apesar de todos esses percalços e contratempos, construíram a linha de bondes num pequeno trecho de 5700 metros, inaugurando-se o respectivo tráfego a 28/9/l9ll. Nesse dia, `as 14 horas, na presença de grande número de pessoas nas proximidades da Estação de Magno - Linha Auxiliar da Estrada de Ferro Central do Brasil [E.F.C.B.], convidou-os o Barão de Santa Cruz, empresário do serviço , para tomarem lugar no bondinho, que era um dos da antiga Cia de Carris Urbanos. Repleto o veículo, seguiu ele em direção a Freguesia de Irajá e, após uma viagem de 40 minutos, chegava ao Largo da Matriz de Irajá, garridamente enfeitado com bandeiras e galhardetes . Os convivas foram recebidos pelo vigário da Freguesia padre Januário Tolomey, cabendo ao Coronel José Ricardo de Albuquerque em nome do "Comitê Central de Irajá", a saudação ao Barão de Santa Cruz. `As 15 horas, regressou a comitiva a Madureira.                               

Seguiu-se a essa inauguração nova luta judiciária cheia de incidentes e imprevistos que se prolongou por muito anos até que a 28/3/l928 foi efetivamente transferida a concessão para a Empresa "Cia Light" que de imediato, tratou de substituir o bonde tração animal pelo de tração elétrica. Assim, no dia 26/6/1928, em tempo recorde, foi inaugurado o primeiro trecho eletrificado do Largo de Madureira até a rua Lima Drummond e no dia l2/10/1928, o trecho final até a Praça de Freguesia de Irajá. Chegava ao fim a utilização s tradicionais bondinhos de burros, saudoso até hoje para muitos mas também criticados por tantos outros na época que viam com entusiasmo o melhoramento pois consideravam o bonde tração animal insatisfatório `as necessidades do público. A linha no seu final de vida, já apresentava péssimo estado de tráfego e era comum os próprios passageiros dos pequenos veículos terem que saltar para repô-los nos trilhos de onde, com facilidade, saiam novamente.

 UMA RECORDAÇÃO INESQUECÍVEL

"Viajar de bonde especial puxado a burros no meu primeiro matrimônio, foi para mim um dia de imensa alegria."

                     Elvira Nascimento - Rio, março de l 992                       

                     Sra. Elvira Nascimento foi uma das antigas moradoras de Irajá que aos 89 anos bem vividos, deixou excelentes subsídios de suas excelentes recordações sobre o bondes tração animal. Procedente de Angustura - Minas Gerais, chegou ao Rio de Janeiro aos 10 anos de idade, indo residir em Vaz Lobo e posteriormente em 1930 em Irajá, apesar de conhecê-lo bastante tempo, devido a curta distância entre os dois bairros. Faleceu no dia 02 de maio de 1998, aos 95 anos de idade.

Conheceu o bondinho puxado pelos burros quando ainda moradora em Vaz Lobo ao ponto de afirmar que na época existia no Largo de Vaz Lobo, Estação de Irajá e no Largo da Freguesia de Irajá, um grande tanque onde os burros dos bondes e outros animais bebiam água. O primeiro passageiro da inauguração do bonde, segundo reminiscência, foi o Sr. Manuel Machado , pessoa influente no bairro, com suas filhas Carmem [fundadora anos mais tarde do extinto Ginásio Manuel Machado que ficava na estrada Marechal Rangel, hoje, Av. Ministro Edgard Romero, entre os números 881/889 e Quininha, ainda viva, residente nas proximidades do Colégio Republicano. A viagem do Sr. Manuel Machado foi surpresa. Ele fora `a cidade com suas filhas tratar de negócios e ao regressar a Madureira, encontrou o bonde aguardando-o com outros convidados para traze-lo a Vaz Lobo. Foi aquela festa que inclusive, contou com banda de música. O diretor da companhia era o Sr. Lucindo , muito querido no local. Era uma pessoa de cor branca, alto e gordo, concluiu.

A sua maior satisfação foi em 1920, quando nos seus 17 anos de idade , contraiu o seu primeiro matrimônio na Igreja de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá, transportada pelo bonde especial, oriundo da Quinta da Boa Vista que, segunda ela, muito bonito pois era forrado com um tapete de veludo vermelho. O referido bonde especial só era empregado em ocasiões solenes, tais como: casamentos e batizados. 

 

                                                             O TOMBADOR - TOMBADOURO

    "Nome do Largo de Vaz Lobo . Neste Largo eram feitas as substituições das duplas de burros que puxavam os bondes. Vim para Irajá em 1924 e me lembro perfeitamente que quando garoto, cheguei a andar nos bondes puxados a burro."                                                              

Assim definiu com entusiasmo o comerciante do local e antigo morador, Sr. Ivan Farias à respeito do assunto, inclusive enfatizando sobre a troca dos animais, dando ensejo de ser observada a inteligência da época, diante dos serviços prestados pelos animais no trajeto de Madureira a Irajá.

A estrebaria funcionou no local onde mais tarde foi construído o ex - Colégio Cristo Rei, em Tombador, hoje Largo de Vaz Lobo. O trajeto de Vaz Lobo para Madureira era feito pela Av. Marechal Rangel, atual Ministro Edgard Romero e como havia uma elevação, a troca era feita da seguinte forma: os burros eram atrelados ao bonde em Vaz Lobo, descansados e alimentados e seguiam para Madureira, conseguindo assim, superar a elevação. Davam a volta e retornavam, passando por Vaz Lobo, seguindo para Irajá através da Av. Monsenhor Félix até o final da linha, ou seja, Largo da Freguesia de Irajá. Retornando e ao chegar ao Largo de Vaz Lobo, eram trocados por outros dois burros .

Os animais estavam tão acostumados ao serviços que, ao sentirem as correntes tocarem ao chão, dirigiam-se sozinhos para a estrebaria sem a necessidade do guia. A troca era rápida e não ultrapassava de cinco minutos.

Segundo Sr. Leoncio em entrevista ao Rio Illustrado, alega, diante seu extenso conhecimento na região entre Irajá à Madureira, que Vaz Lobo era o nome de um médico, figura de grande realce, residente do lugar.

Quanto ao nome "Tombadouro", explicou: "Havia, naquele trecho, um caminho perigoso. Raras pessoas que ali passavam não fossem vítimas de quedas, tal a natureza irregular do caminho. E este ficou sendo, assim, o "Tombadouro".

 

IMPREVISTOS

Rio, Julho de 1992

    Coube o registro que se segue ao saudoso morador, Sr. Delcy de Queiroz, falecido em outubro de 1996 aos 74 anos de idade, cujos os restos mortais repousam no Cemitério de Irajá.

Na tarefa diária, os burros `as vezes, empacavam e o bonde não andavam de jeito algum, obrigando os passageiros a saltarem e esperarem a boa vontade dos burros ou seguirem seus destinos a pé.

Sua afirmativa vem de encontro com os esclarecimentos do escritor J.C. Dunlop no seu livro "Rio Antigo"- 1958.

Diz o autor: " A linha estava em péssimo estado de tráfego e constantemente, os próprios passageiros dos pequenos veículos , tinham que saltar para repô-los nos trilhos, de onde, com facilidade, saiam novamente."

Da mesma forma afirmou o capitalista e comerciante do bairro de Madureira Sr. Eduardo de Almeida no Rio Ilustrado-1937. Português, natural da Freguesia de Peno Jóia, Conselho de Lamego, distrito de Viseu, onde nasceu em 1874, vindo residir no bairro de Madureira em 1895.

"- O Barão de Santa Cruz era detentor de uma concessão pelo qual se lhe tomava adstrita a exploração aqui dos serviços de transporte. O Barão passava em riscar as ruas com os trilhos de seus bondes e, valendo-se daquela concessão, aqui lançou, um dia, os tais bondinhos de burro.

Esses bondes eram um caso sério. Saiam a todo instante das linhas e, em tais apuros eram os passageiros que, soltando ajudavam o condutor a repô-los sobre os trilhos. Vagarosos, enervantes , gastavam horas de viagem. E pagava-se, por isso, uma taxa pesada ou, pelo menos, em nada compensadora.

A tração animal só foi inteiramente abolida, em Madureira em 1927. Até então o tráfego de passageiros para Irajá e Vaz Lobo, era feito, ainda bondinhos de burro. Foi na gestão do Prefeito Prado Junior que a Ligth estendeu , aquelas localidades, os bondes elétricos."

 

Foto 1 - Um outro abencerragem da coleção histórica do Malta - Rio Illustrado-1937.

Foto 2 - Um dos bondinhos do Barão de Santa Cruz - Rio Illustrado 1937.

Foto 3 - Sra. Elvira Nascimento - cortesia da própria Irajaense.

Foto 4 - Um dos aspecto antigo do Largo de Vaz Lobo, vendo-se a garagem dos tradicionais bondinhos de burro e alguns veículos Em 1937 já existiam construções modernas no local.

Foto 5 - Esta parelha desapareceu. Ficou apenas a estação que já em 1937, passou a servir de garagem à empresa de ônibus Santos Dumont.

Foto 6 - Estação. Agência da Empresa de Bondinhos de Burro do Barão de Santa Cruz em Vaz Lobo que, ainda se mantinha de pé em 1937.

Fontes consultadas:

* Seção de Coletas , Dados e Informações da XIVa. RA de Irajá – 1992.

* Biblioteca popular de Irajá, João do Rio – 1992.

* Páginas Amarelas [1988/89] e [1989/90].

* Livro "Rio Antigo"- Volume I – 2a. Edição – Editora Rio Antigo Ltda. – RJ – 1958 – autor J.C. Dumlop.

* Livro "Freguesias do Rio Antigo" de Noronha Santos – 1965.

* Dicionário Prático Ilustrado [Novo Dicionário Enciclopédico Luso Brasileiro, publicado por Jayme de Següier [3a. Edição revista – Porto], Livraria Chardron Lello, Limitada – 1931.

* Rio Ilustrado – 1937 – cortesia da Sra. Norma Zangrando Pereira.

* Memórias da Sra. Elvira Nascimento [+]

* Memórias do Sr. Delcy de Queiroz.

* Memórias do Sr. Ivan Faria

* Memórias da Sra. Norma Zangrando Pereira.

 

BONDE ELÉTRICO

    Enquanto que no bairro de Irajá circulou desde 1910 os bondes puxados a burros [tração animal], e que se estendeu até 1928 quando foram substituídos pela de tração elétrica segundo C.J. Dumlop, na Capital e em toda América do Sul, a inauguração deu-se em 08/10/1928 pela sinuosa praia do Flamengo através do carro nº 104, sistema "Robinson", de quatro rodas, da Companhia Ferro - Carril do Jardim Botânico.

Houve quem temesse neste primeiro bonde elétrico o que levou a companhia afixar nos espaldares dos assentos o seguinte aviso: "A corrente elétrica nenhum perigo oferece aos Srs. passageiros".

 

IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA EM IRAJÁ

TRAJETÓRIA E INFLUÊNCIAS

    A luta para a implantação do sistema de bondes a tração elétrica em substituição ao de tração animal não foi fácil mas como o de tração animal já se encontrava insatisfatório `as necessidades do público, apresentando péssimo estado de tráfego, a luta judiciária entre o Barão de Santa Cruz e os que queriam a implantação do bonde elétrico , chegou ao fim com a efetivação em 28/3/1928 da transferência de concessão, depois de vários anos de incidentes e imprevistos, em favor da "Cia Ligth" que, de imediato, tratou de substituir os bondinhos de burros pelos bondes elétricos.

Na época, o capitalista e comerciante do bairro de Madureira, Sr. Eduardo de Almeida, numa entrevista ao Rio Ilustrado – 1937, português, natural da Freguesia de Peno Jóia, Conselho de Lamego, distrito de Viseu onde nasceu em 1874, vindo residir em Madureira em 1895, concede uma visão do motivo da batalha judiciária pela implantação dos bondes elétricos. Segundo Sr. Eduardo de Almeida, Madureira em 1910 já era um centro agrícola de intenso movimento, para onde convergiam inúmeros lavradores, e o bairro não dispunha de meios fáceis de transporte. O problema estava em conseguir que a Ligth trouxesse as suas linhas a Madureira tendo em vista que já se estendiam até Cascadura. Dali para Madureira seria um pulo que o Barão de Santa Cruz dificultava porque, se concedesse, de certa forma implicaria na falência de sua empresa, localizada no Largo de Vaz Lobo. Foram em comissão ao Barão de Santa Cruz e dispuseram suas intenções. Pediram ao Barão um sacrifício ou seja, de renunciar aos direitos que a concessão lhe conferia de modo a facilitar a Ligth a distensão de seu trilhos de Cascadura a Madureira. A intenção não era bondes de passageiros pois já se contentariam com um serviço de carga para transporte de mercadorias. A resposta do Barão foi a de não renunciar em causa alguma e nem permitiria jamais que tal fato acontecesse. Então a Comissão da qual o Sr. Eduardo de Almeida fazia parte, dirigiu-se ao senador Otacílio Câmara tendo este, uma vez ao par dos acontecimentos, aconselhado a comissão se dirigisse a Ligth e como sugestão, ele os acompanhariam se assim desejassem. Assim procederam e a Ligth ao ouvir a comissão pela voz autorizada do senador, forneceu todos os dados pelos quais se verificava ser possível estender a linha a Madureira, não só para os bondes de carga onde a reclamação do povo era maior como também de passageiro. O certo é que, dois anos mais tarde os bondinhos de burro se sentiram seriamente ameaçados, por isso a Ligth cujos carros já iam a Cascadura, iniciou naquele ano, 1910, o serviço de prolongamento das linhas a Madureira, concluindo-os com rapidez.

 De 1912 a 1916 foi somente de espera pela inauguração dos bondes, até que, numa tarde de segunda-feira, rompeu ao longe o primeiro bonde elétrico sobre trilhos, todo embandeirado e barulhento. Motivo de intenso júbilo para a população de Madureira.

O sistema a tração animal só foi inteiramente abolida em Madureira em 1927, permanecendo o tráfego de passageiros para Vaz Lobo e Irajá.

O progresso de Madureira sem dúvida alguma influiu tanto que a Ligth estendeu, na gestão do prefeito Antonio Prado Junior, os bondes elétricos aos bairros circunvizinhos, ou sejam, Vaz Lobo e Irajá em 1928, Penha em 1934.

O bonde elétrico de Irajá que tinha o n° de linha 98, foi extinto no governo do então governador do Estado da Guanabara - Dr. Carlos Frederico Werneck de Lacerda [ governo eleito: 05/12/60 à 1965].

 

RAMIFICAÇÃO DA LINHA DO BONDE ELÉTRICO

MADUREIRA A IRAJÁ

Quanto a ramificação da linha de bonde elétrico no percurso de Madureira a Irajá, há divergências, se não vejamos: C.J. Dumlop afirma que foi no dia 26 de junho de 1928 que inaugurou-se em tempo recorde o primeiro trecho eletrificado ou seja, do Largo de Madureira [Estação de Magno] à rua Lima Drumond [Vaz Lobo] e no dia l2 de outubro do mesmo ano, até o final da Praça da Freguesia de Irajá.

Já o antigo morador do bairro de Irajá, Sr. Delcy de Queiroz, nascido em 11/11/l926 e falecido em 09/10/l996, em suas reminiscências, declarou em l993 que na década de 20, a princípio, o bonde de tração elétrica só chegava até a atual rua Guiraréia [Irajá], na época também chamada de "Tombadeiro ", e que mais tarde a linha foi estendida até o centro de Irajá, fazendo ponto onde hoje está localizada a Farmácia Drogasmil Medicamento e Perfumaria KRDA - avenida Monsenhor Félix 504A e a posteriori, aí sim, estendida até a Praça da Freguesia de Irajá.

 Observações:

Foto do bonde Irajá – cortesia da Biblioteca Popular de Irajá, João do Rio - 1999. Uma arte fotográfica muito significativa, de valor, apresentada em "cartaz – convite", pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro – Secretaria Municipal de Educação e a Escola Municipal Barcelona do Bairro de Irajá. Com slogan "Irajá – Fonte de mel no tempo e no espaço", convidando a comunidade para comparecer no período de 09 à 20 de novembro de 1993 à exposição de fotos alusivas ao evento na Biblioteca Popular de Irajá, João do Rio coordenada e montada pelo eficiente e entusiasmado Irajaense, professor, estudante universitário, Moisés Jordão Filho, com apoio do Departamento Geral de Ação Comunitária – Centro de Memória da Educação.

A foto para a elaboração do cartaz-convite foi cedida ao professor Moisés Jordão Filho, pelo morador Irajaense, Ernani Puerta Zangrando.

É um registro muito importante para a histórica de Irajá, pois a foto em questão está numa posição alegre e interessante, dando vivas psicologicamente à pesquisa, de como o cidadão Irajaense se identificava com o referido veículo de tração elétrica, quer em momento de lazer ou mesmo em horas de trabalho.

 

PARTICULARIDADES

* Segundo o Sr. Leoncio Machado – Rio Ilustrado – 1937, que residiu em Vaz Lobo, foi o seu tio, o ex - intendente municipal [nome dado aos antigos funcionários que dirigiam uma administração pública e que durou até 1930, correspondendo hoje ao cargo de Prefeito], Manoel Luiz Machado que trouxe a Irajá o bondinho de burro, junto ao Barão de Santa Cruz.

* O bonde elétrico, segundo antiga moradora do bairro de Irajá, Sra. Palmira de Queiroz, só prestava serviços de acompanhamento de cortejos fúnebres enquanto que os bondes de burro, transportava inclusive, urnas funerárias. Na década de 30, apareceram os bondes "Taiobas" [ bonde de segunda classe], que transportavam entre outras coisas, móveis e lavadeiras.

* Ponto Cem Reis - década de 30. Segundo antigo morador do bairro de Irajá, Sr. Cristovão Pinto, o nome "Ponto Cem Reis", foi assim batiza do pelos próprios passageiros dos bondes, devido o fim e o início de uma nova seção tarifária. Era o encontro dos bondes "ida - volta" entre Madureira a Irajá nos desvios , sendo um na estação de Irajá, em frente ao atual banco Bradesco e o outro no Pau Ferro, em frente a atual escola Municipal José do Patrocínio.

* As paradas dos bondes elétricos para embarque e desembarque de passageiros eram feitas em postos determinados. Os postes de parada tinham uma tarja branca, bem visível, para sua identificação.

* No período de Momo [carnaval], era uma tradição dos bondes elétricos ficarem completamente cheios de foliões que neles trafegavam de Irajá a Madureira e vice - versa, brincando e cantando modinhas carnavalescas . Nos festejos de Momo de 1993, as autoridades e a comunidade do bairro prestaram uma homenagem ao bonde Irajá através de um coreto erguido na Av. Monsenhor Félix, perto da XIV Região Administrativa de Irajá.

* A Praça 27 de Agosto, localizada no cruzamento das ruas Marquês de Aracati e Miranda de Brito, expôs, por um determinado período, após sua extinção, um dos reboques utilizados pelos bondes elétricos que circularam pela região com o propósito específico de visitação pública, divertimento das crianças bem como de levar cultura histórica aos que não tiveram a oportunidade de conhecê-los em atividade.

* Os melhoramentos no trajeto Madureira – Penha, o bairro de Vaz Lobo [ intermediário], o bairro de Irajá e adjacências, foram visivelmente beneficiados com o meio de locomoção e ampliação no tocante ao comércio e trabalho.

* Os moradores do bairro de Irajá e adjacências, faziam baldeações em Vaz Lobo, ou seja: saltavam em Vaz Lobo e aguardavam o bonde Penha oriundo de Madureira e no retorno, usavam do mesmo recurso, aguardando o bonde Irajá, oriundo de Madureira.

 

Documento pertencente ao autor da pesquisa histórica quando. Recibo comprovante da participação em 1944, dos bondes de tração elétrica no acompanhamento de cortejos fúnebres, denominados "Carros Especiais".

 

EFICIÊNCIA

O bonde elétrico tinha horário estabelecido e com isto veio favorecer em muito na oportunidade da criação de amizades entre os passageiros mais comunicativos. Em determinados momentos, pareciam uma família alegre e descontraída.

Uma famosa propaganda, entre outras, que existia nos bondes, assevera esta eficiência onde muitos antigos moradores de Irajá lembram até hoje :

 

" Veja ilustre passageiro,

o belo tipo faceiro

que o senhor tem ao se lado,

mas, no entretanto acredite,

quase morreu de bronquite,

salvou-o o Rhum Creosotado".

 Outra:

"Se o llustre passageiro,

aspira ser bom pintor

e ganhar muito dinheiro,

tome nota, por favor:

pros artistas de pincel

acabou-se a carestia,

porque na casa do Abel

de Barros & Cia

tem tintas, óleos, vernizes,

pra dar de graça ao freguês.

É na rua Buenos Aires

233."

Observações:

Segundo nota em Jornal O DIA de 05/4/1996 – 6a, feira – Seção "Cartas na Mesa" - há uma nota de Isaac Schneider, que confirma como autor do poemeto de publicidade brasileira "Rhum Creosotado", ao farmacêutico Ernesto de Souza.

* Foto do bonde elétrico nº 97 [Estação], trafegando em 24 de fevereiro de 1952 perto de Vaz Lobo. Cortesia da antiga moradora de Irajá, Sra. Déa Marques. Foto duas vezes premiadas em concurso de Artes Plásticas – Categoria Desenho pelo autor da pesquisa: 3º lugar na IV Amostra de Arte do GAP "Amigos de Irajá", em 06/8/1992 e 2º lugar no II Salão de Artes "Cléa Japiassú Maia, período de 07 a 11/6/1993, realizado pela Academia de Letras e Artes de Paranapuã [ALAP], nos salões da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

 

ENFOQUE

    O autor desta pesquisa histórica, por alguns anos, teve lado a lado de sua residência em Irajá, dois vizinhos que foram funcionários da Empresa de Energia Elétrica: o falecido Sr. José Joaquim Martins, português, naturalizado brasileiro e o também já falecido Sr. Oswaldo Corrêa.

O Sr. José Joaquim Martins foi condutor, fiscal e motorneiro até a aposentadoria. O Sr. Oswaldo Corrêa foi manobreiro que com a extinção do bonde, passou a Companhia de Transportes Coletivos – CTC, onde se aposentou. O primeiro veio para Irajá em 1938 e o segundo, mudou-se a alguns anos.

O enfoque é plenamente justificável tendo em vista que muitos fatos ligados aos bondes elétricos, foram prosados por ambos, sempre emocionados pelo carinho que dedicavam a profissão.

O BONDE

Agostinho Rodrigues

1988

 

Simples mas bem aplicável,

fácil manejo de ser conduzido,

cômodo e barato,

tarefa tranqüila para os usuários,

era o bonde no passado,

felicidade completa de alegria,

do inspetor vivaz e esbelto

ao motorneiro de pé nos manejos,

destarte o condutor a figura central

que firme nos estribos,

passando de um banco após outro

com várias moedas nas mãos,

um tric-trac sonoro elegante

além do tim...tim de parada ou partida

numa posição límpida e clara

onde os passageiros eram vistos,

dependurados ou sentados tranqüilos

sem o perigo de uma batida,

rodando entre trilhos

em trechos longos ou curtos

alguns lendo, outros confabulando

num ambiente descontraído

sem pensar em assalto ou violência

que impera hoje em dia,

participações exuberantes no carnaval

onde os foliões brincavam sem igual

na traseira da frente e/ou reboque

além do acompanhamento em funeral

é uma saudade inesquecível,

hoje, curiosamente à sentir,

que jamais serão esquecidos,

podendo na Cidade do Rio de Janeiro,

ser um fruto de um novo porvir.

 

Fontes consultadas:

* Biblioteca Popular de Irajá, João do Rio.

* Livro "Rio Antigo"- volume I – 2a. edição – Editora Rio Antigo Ltda – RJ – 1958 – autor J. C. Dumlop.

* Livro "Freguesias do Rio Antigo"- autor Noronha Santos – 1965.

* Rio Illustrado – 1937, cortesia da Sra. Norma Zangrando Pereira.

* Memórias do autor da pesquisa.

* Memórias da Sra. Palmira de Queiroz.

* Memórias da Sra. Déa Marques.

* Memórias do Sr. Delcy de Queiroz.

* Memórias do Sr. Cristovão Pinto.

* Memórias do Sr. Alberto Martins.

* Memórias do Sr. Hugo Salomão.

 

ESTRADA DE FERRO RIO D’ OURO

    Lombo dos animais e carretas foram, por muitos anos, o meio de transporte empregado no bairro de Irajá até que em 1883 surgiu o trem a vapor, o tradicional "Maria Fumaça" da Estrada de Ferro Rio D’ Ouro.

 

ORIGEM DA ESTRADA DE FERRO RIO D’OURO

A origem da Estrada de Ferro Rio D’ Ouro está ligada ao Decreto nº 2639 de 22/9/75 que autorizou o início das obras de abastecimento d’água do Rio de Janeiro. Para tanto se fazia necessário a construção de uma linha férrea para o transporte de material da adutora ou seja, da Quinta do Caju às represas do Rio D’ Ouro.

Fim dos trabalhos de construção em 1882, a ferrovia foi finalmente aberta ao público em 15/1/1883 e mais tarde, vendida ao Governo pela soma de 778 contos, 600 mil e 664 reis. A estrada tinha uma extensão de 58 quilômetros que se desenvolvia paralelamente à Estrada de Ferro D. Pedro II, passando por Benfica, Pilares, Irajá, Pavuna, Brejo Cava e Rio D’ Ouro.

Possuía como material rodante cinco locomotivas da "Hunstel Engine Co, 11 carros e 41 vagões. O relatório da empresa em 1883, registrava o transporte de 29.132 passageiros, 4870 toneladas de carga e 133 tonelagem de bagagem e encomendas. A ferrovia dispunha ainda de pequenos ramais como os de Inhaúma, com dois quilômetros, entre outros menores.

A Estrada de Ferro Rio D’ Ouro tinha do Centro a estação de Irajá, 18,871 metros de altitude e 180 quilômetros de extensão.

Na subdivisão territorial do então Distrito Federal, hoje, Estado do Rio de Janeiro, nos coube a 26a. Circunscrição, pertencente ao 10º Distrito [Madureira], que compreendia do Rio Jacaré [Praz de Pina], Vicente de Carvalho, Engenho do Mato, Tomás Coelho, Centro Vidal até a estação da Liberdade.

Em 1925, após a construção de vários ramais, a Estrada de Ferro Rio D’ Ouro se estendia por 146 quilômetros, partindo da Quinta do Caju com chegada em Jaceruba, Tinguá e Xerém.

 

ESTRADAS FERROVIÁRIAS A DISPOSIÇÃO DE IRAJÁ NO SÉCULO 19

No século XIX, o bairro de Irajá e adjacências passou a ser servida por quatro [4] estradas de ferro, à saber:

a] Central do Brasil – compreendiam as estações de Madureira, Sapopema [atual Deodoro], Rio das Pedras [ atual Oswaldo Cruz].

b] Rio D’ Ouro – compreendiam as paradas de Vicente de Carvalho, Irajá, Colégio, Areal [ atual Coelho Neto, inaugurada em 15/1/1883] e Pavuna.

c] Melhoramentos – compreendiam as paradas de Eduardo Quirino, Coronel Magalhães [ atual estação de Magno, inaugurada em15/6/1890], Inharajá [ atual estação de Turiaçú, inaugurada em 28/3/1989] e Honório Gurgel.

d] Norte – Antiga Leopoldina que abrangia a estação da Penha e os pontos de parada de Cordovil e Vigário Geral.

A única estrada de ferro que a comunidade do bairro de Irajá utilizou diretamente, sem necessidade de baldeação foi a Estrada de Ferro Rio D’ Ouro. Quanto as demais havia necessidade da utilização de outro meio de transporte que os levassem, por exemplo, a Madureira ou a Penha.

 

PLATAFORMA DA ESTAÇÃO RODOVIÁRIA DE IRAJÁ

 

Antes da década de 30 não havia propriamente dito, estação de trem no bairro de Irajá. [Utilizava-se de uma rampa localizada nas proximidades da Av. Automóvel Clube de quem segue para Vicente de Carvalho, defronte a Leiteria do Sr. Manoel Loureiro.

Existia no Local uma loja que vendia as passagens.

A primeira plataforma coberta da estação de Irajá, foi construída ao lado oposto da Av. Monsenhor Félix, de quem segue para o bairro de Colégio. Em 1937 sofreu modificações com a troca de plataformas de madeira pela de concreto.

Observação:

 Na foto, década de 30, cortesia do antigo morador do bairro de Irajá, Sr. Hugo Salomão, observa-se vestígio da antiga rampa de embarque e desembarque de passageiros e cargas e a nova plataforma coberta. Ainda a esquerda para a direita de quem vem de Vicente de Carvalho: padaria do Sr. José Nobre, fazendo esquina com a Av. Monsenhor Félix e Automóvel Clube, quitanda do Sr. José Adriano, botequim do Sr. Abílio de Queiroz e a Leiteria do Sr. Manoel Loureiro. Do outro lado da Avenida Monsenhor Félix, o Armazém do Sr. Militão, onde ficava a bomba de gasolina. Por último, um veículo marca Ford da década de 20.

 

PARTICULARIDADES

* A locomotiva a vapor, de cor preta, era exposta à chuva, ao vento, à poeira, fazia barulho, soltava óleo, enchia-se de fuligem, escaldava calor, mas era considerada não só pelo maquinista como pelo guarda-freio, muito simpática. Tinha algo de humano pois alimentava-se de água e carvão, recebendo-os das mãos do foguista como se fosse um animal de estimação.

* Possui a locomotiva vasta importância histórica tanto que há até o museu de trem localizado no bairro de Engenho de Dentro. No acervo do museu por exemplo, estão a tradicional "Baronesa"; a primeira locomotiva do país, o carro imperial usado por D. Pedro II; o vagão construído especialmente para acomodar o rei Alberto da Bélgica em 1920; o vagão presidencial usado por Getúlio Vargas em 1930; miniaturas, ferroramas, painéis contendo fotos, sinos, etc.

* A locomotiva era uma máquina a vapor que puxava sobre carris de ferro um comboio de carruagem chamadas vagões composta de fornalha, caldeira e a respectiva máquina a vapor.

* O engenheiro inglês George Stephenson foi quem, em 1822, construiu a primeira locomotiva prática.

* Segundo J.A.S. Drumond na Revista "A Ancora"- Ano X – Março e Abril de 1937 – Nº 71, foi João Piloto o inventor do aparelho eletrodinâmico de sinalização ferroviária, requerido para todas as estreadas de ferro a bem da garantia de vida dos que tinham que se locomover por meio ferroviário.

João Piloto foi ex - militar da Marinha Brasileira em 1911. Idealizou, esboçou, desenhou e construiu não só em miniatura como na aplicação da demonstração prática feita num trecho entre Nova Iguaçu a estação de Mesquita, em outubro de 1936.

* Existiu o trem de carga que trazia lenha e carvão para a estância bem como aipim e banana oriundas de Xerém, José Bulhões, Belfort Roxo e outros.

* A Estrada de Ferro Rio D’ Ouro mantinha um ramal de Vicente de Carvalho ao povoado da Penha com seis quilômetros de extensão e só trafegava nos dias de festa da Igreja de Nossa Senhora da Penha.

* A total extinção da linha férrea Rio D’ Ouro ocorreu no período de governo [1960 à 1965], do governador do ex - Estado da Guanabara, hoje Rio de Janeiro, Dr. Carlos Frederico Werneck Lacerda.

* Ano de 1940 – surge o varejo da estação férrea de Irajá de propriedade do Sr. Agostinho, administrada pelos seus filhos Fernando e Altino. O varejo funcionou por muitos anos, mesmo após a desativação da estação férrea, até a sua total demolição para dar lugar ao Metro. Funcionava 24 horas por dia, tornando-se útil aos passageiros e pessoas da noitada, servindo café, refresco, sanduíche, etc.

* Transportou em vagões de carga próprio, urnas funerárias destinada ao ato fúnebre, no cemitério Israelita do bairro de Vila Rosali, até hoje existente.

 

SINALEIRA DE IRAJÁ

Na década de 20, só existia o sinaleiro. O processo de sinalização era feita toda vez que a locomotiva se aproximava ou saia da plataforma da estação de ferro de Irajá,

A sinalização de dia era feita pelo sinaleiro por meio de bandeirolas: amarela para caracterizar sinal livre e a vermelha o sinal de perigo. A noite, o sinaleiro utilizava o lampião de dupla cores: amarela e vermelha, com o propósito ou seja, de prover a segurança contra colisão, como por exemplo, do bonde elétrico ou atropelamento de transeuntes.

Com a aproximação ou saída da locomotiva da plataforma, era comum o sinaleiro ficar no meio da Estrada Monsenhor Félix, hoje avenida, perto da via férrea. Este sistema durou até a década de 30. Por volta de 1934, surge a cancela propriamente dita, com respectivo alarme.

Seu funcionamento consistia de um enorme peso preso numa das extremidades, ligada por um eixo na base fixa, [lado esquerdo de quem segue para Vaz Lobo pela Av. Monsenhor Félix], contando no centro um possante lampião fixo de luz vermelha. Na outra extremidade, preso a esta, uma corda onde o sinaleiro suspendia a cancela [afrouxando a corda lentamente], permitindo o livre acesso aos veículos e transeuntes e/ou arriava [puxando a corda para si], na aproximação ou saída da locomotiva da estação.

Da década de 40 a 60, além do alarme, o sistema da cancela já composto pelo sistema eletromecânico implantado em 1937, foi sofrendo modificações através de sistemas mais aperfeiçoados com modernas sofisticações, como a movimentação automática, visando entre outros aspectos a segurança, abolindo de vez o concurso da mão de obra humana do sinaleiro.

Observação:

Foto da Estação do trem de Irajá, cortesia do Sr. Adolpho Garcia, tirada em 1970.

 

LENDAS

* Consta que por longo tempo, houve um bode que todos os dias viajava sozinho da estação do Engenho da Rainha para o bairro de Acari com o propósito de namorar as cabras do lugar, retornando à tarde.

* Que pelos silvo nervoso e repetido do comboio da Rio D’ Ouro quando aproximava da estação ferroviária, deixava os passageiros sacudidos em sublime encantamento.

 

FATOS

* Em 26 de agosto de 1950 – houve um acidente de trem que mexeu com a sensibilidade da comunidade do bairro de Irajá e Colégio: choque de dois trens da Rio D’ Ouro de frente, entre as estações de Acari e Pavuna.

* A existência do Clube dos Caçadores de Madureira que fretavam uma composição inteira para levar as suas famílias para a caça e churrasco na represa do Rio D’ Ouro. O embarque dos passageiros participantes era feito até a estação de Belfort Roxo, depois pegava a linha Rio D’ Ouro, só parando na represa. Vários moradores de Irajá participaram deste evento, entre os quais, citamos a Sra. Elvira do Nascimento, Sr. Hugo Salomão e o Sr. Delcy de Queiroz, segundo este, assim definiu em junho de 1993: "Um brilhante cenário que jamais será revivido. O trem partia às seis horas da manhã todo enfeitado de bandeirolas, bandinha e muitos fogos."

 

O TREM

Agostinho Rodrigues

Rio, 06/6/1993

 

Me lembro...

Era tão pequenino

de mão dadas a mãe

na plataforma de Irajá,

aguardava o trem com aflição.

Inhaúma era a parada,

local que tínhamos que saltar

para visitar a tia Luiza,

que Deus a tenha em bom lugar.

Ao longe sua fumaça anunciava:

lá vem a locomotiva chegando,

"Maria Fumaça", o seu apelido,

alegre e aconchegante.

Os minutos eram contados

mas logo despontou,

apitou três vezes

e como bom filho, parou.

Pronto. Nós já estávamos no trem,

confortado num dos bancos,

ele apitou bem forte,

deu dois solavancos e partiu.

No trec...trec...trec...trec...

das emendas dos trilhos,

seguiu a "Maria Fumaça",

levando-nos ao nosso destino.

Chegando a Inhaúma,

eu e mãe, dela nos despedimos.

Oh, que saudade eu sinto,

dá locomotiva amiga!

 

FAÍSCA

    Faísca é o pseudônimo poético da poetisa Leonor Garcia da Cunha , antiga moradora do bairro que gentilmente cedeu as poesias "Corrida de Ferro" e "Trem de Pau", como relato de suas reminiscências para a pesquisa histórica em questão.

Retrata a época em que trabalhou em Irajá na Fundação Suburbana. Inaugurada em 1930, a Fundição Suburbana, durante 50 anos, funcionou em duas partes: técnica e contabilidade e foi nesta última que a vate Irajaense exerceu.

A fundição consistia em fundir ferro, bronze, alumínio, cobre e execução de qualquer outro modelo de fundição solicitada, entre outros.

No transcorrer de suas atividades, demonstrando amor ao cargo e ensejando progresso, que era do seu pai, Sr. Francisco Garcia, já falecido, a poetisa Leonor [Faísca], extravasou seus sentimentos poéticos, trazendo à luz à maneira de como os operários da firma faziam a "corrida do ferro", transformando-o em peças e entre elas, as destinadas às locomotivas,

Em "Trem de Pau", a poetisa enfoca os vagões de passageiros e os de cargas uma vez que a sua carcaça era de madeira. Destaca o tempo em que "réis" e o "tostão", eram o nosso dinheiro em vigor; a passagem [bilhete], de 1a. e 2a. classe; os dribles [desvencilhos] dos passageiros na procura de viajar em vagões de 1a. classe com a passagem de 2a., para usufruir de um melhor conforto; os baleiros com o seu canto de guerra, chamando atenção dos passageiros, uma situação que perdura até hoje nos novos tipos de transportes empregados, [ônibus e trens], acrescido de outros tipos de venda, como gulodices, entre outros.

Discorre o roteiro do trem da Estrada de Ferro Rio D’ Ouro, partindo de Francisco de Sá até a estação ferroviária de Irajá bem como o comportamento do mesmo durante o transcurso da viagem.

É mister relembrar que na década de 40, as crianças brincavam com as passagens [bilhetes], já picotadas [inutilizadas], para fazer o joguinho do abafa, utilizando a palma da mão. Virando a passagem com o vácuo, o jogador da vez continuava jogar sucessivamente e em caso de não lograr êxito, passava o direito ao jogador da vez e assim por diante. Era composto de dois ou mais participantes sentados em círculo e geralmente no chão.

Era comum ver crianças catando passagens na estação ferroviária com o objetivo de participar da brincadeira. Um jogo infantil até hoje realizado pelas crianças, como as figurinhas de álbum, entre outras.

 

CORRIDA DE FERRO

"Faísca"

Olha a panela!

uuuuuuuuuuu!

Olha a panela!

uuuuuuuuuuu!

 

Grito vaiante

dos homens de bronze,

de muque de aço,

de alma de ferro.

 

Olha a panela!

uuuuuuuuuuu!

Olha a panela!

uuuuuuuuuuu!

 

Sacodem estrelas,

respingos do lume,

da boca do forno

do ferro a correr.

 

Gigantes em luta

na areia onde buscam

a forma divina.

Na tecnologia,

nas siglas e pesquisas

os decisivos prometem.

 

Rodas, engrenagens

girando, girando,

bica de sangue

purpúreo a verter.

E, num milagre, aquelas formas

se transformam em riquezas.

 

Chega o cansaço

e o suor mirrador,

o crepúsculo desce

a comporta se abre

e, nessa hora,

o fogo vira poesia.

 

TREM DE PÁU

"Faísca"

- Piuí! Piuí! Piuí!

Saudoso apito do trem

que o tempo fez parar! 

Passagem se primeira,

quinhentos réis.

Passagem de segunda,

trezentos réis.

Comprava de segunda,

viajava de primeira.

Camaradeiro chefe de trem,

finge que não via...

Picotava o bilhete...

Sobravam duzentos réis. 

- Bala, baleiro, bala

- Dez por tostão

- Quem vai querer? 

Conta certinha,

uma bala de fruta pra cada estação:

Francisco de Sá,

Vieira Fazenda,

Heredia de Sá,

Maria da Graça,

Del Castilho,

Inhaúma,

Engenho da Rainha,

Engenho do Mato,

Vicente de Carvalho, e

Irajá

- Ir – a – já a Irajá?...

Mas como demorava...

- Piuí! Piuí! Piuí!

Serpenteando nas curvas,

lá vinha ele cansado:

- Muita carga, pouca força.

- Muita carga, pouca força.

- Muita carga, pouca força.

- Muita carga, pouca força. 

De repente reagia,

xingava todo mundo,

soltando fogo pela boca

e faíscas pelo nariz.

Roda girando, ferro gemendo,

paragem final!

 

Fontes consultadas:

* Centro de Preservação da História Ferroviária do Rio de Janeiro – Engenho de Dentro – 1983 – Museu Ferroviário. Cortesia da Museóloga, Sra. Estela Ladeira – Agosto de 1992.

* Dicionário Prático Ilustrado [Novo Dicionário Enciclopédico Luso – Brasileiro, publicado por Jayme de Seguier, 3a. edição revista – Porto], Livraria Chardron Lello Ltda – 1931.

* Boletim do I.A.C. nº 29 – novembro de 1950 – cortesia do Sr. Hugo Salomão.

* Rio Ilustrado 1937 – cortesia da Sra. Norma Zangrando Pereira.

*Revista "A Âncora"- Ano X – março/abril de 1937 – nº 71 – Revista Técnico – Militar, instrutiva e literária – Órgão da Associação dos Sub – Tenentes – Oficiais da Armada.

* Memórias e acervo do autor

* Memórias do Sr. Hugo Salomão

* Memórias do Sr. Adolpho Garcia

* Memórias do Sr. Carlos Alberto Taborda

* Memórias do Sr. Delcy de Queiroz

* Memórias da Sra. Elvira do Nascimento

* Memórias do Sr. Cristovão Pinto

* Jornal "O DIA" de 22/9/92.

 

TREM ELÉTRICO

 Foto xerox – Rio Illustrado 1937

Composição de trem elétrico

 

    Enquanto que o bairro de Irajá em 1937 era servido por locomotivas a vapor movidas por carvão pertencente à Estrada de Ferro Rio D" Ouro, o bairro de Cascadura era o ponto final, com retorno à Cidade, da Estrada de Ferro da Central do Brasil.

Urge o desenvolvimento populacional e o progresso respectivamente dos bairros de Madureira, Vaz Lobo, Irajá e adjacências ao ponto de exigirem do Governo do então Presidente da República, Dr. Getúlio Dornelles Vargas, uma atenção especial sobre o problema que culminou com a construção das estações de Madureira, Rio das Pedras [Oswaldo Cruz], Bento Ribeiro, Marechal Hermes e Deodoro. A inauguração deu-se no sábado do dia 10 de julho de 1937, às 15 horas, com a presença do Presidente da República. Marco da extinção definitiva da locomotiva a vapor em favor do trem elétrico. Os bairros de Vaz Lobo, Irajá e adjacências, foram beneficiados indiretamente pelo novo sistema de transporte ferroviário empregado mesmo através da necessidade de baldeação em Madureira o que antes se estendia à Cascadura.

Segundo o Rio Illustrado – 1937, a quem coube o trabalho de cobertura jornalista da solenidade junto aos promotores dos festejos comemorativos da eletrificação dos trens em Madureira, no dia da inauguração, os organizadores das localidades beneficiadas pelo progresso ferroviário, tiveram a iniciativa de oferecer bondes a tração elétrica, com passagem gratuita, à todos moradores de Irajá, Vaz Lobo e adjacências, para prestigiar o novo meio de transporte.

O Presidente da República, na ocasião, foi ovacionado pela população presente, tendo sido recebido na gare de Madureira por uma comissão local onde coube ao Dr. Manoel Luiz Machado Junior, remanescente de tradicional família Irajana, filho do Intendente Manoel Luiz Machado, na época já falecido, a oportunidade de usar da palavra de agradecimento em nome da população de Madureira, Vaz Lobo, Irajá, e adjacências.

Até hoje, todos os bairros supra mencionados bem como os demais bairros supra mencionados bem como os demais bairros circunvizinhos continuam a usufluir do referido transporte.

Antes da desativação por completo da linha pertencente a Estrada de Ferro Rio D’ Ouro, andou circulando de maneira precária, algumas composições formadas por vagões de passageiros de trens elétricos, movidas pela locomotiva de óleo diesel. Circulou por pouco tempo, terminando antes mesmo da desativação da estação ferroviária de Irajá.

 

Foto xerox – Rio Illustrado 1937

Contraste: Trem a carvão poluindo ao lado do trem elétrico, menos poluente,

ocasionando apenas poluição sonora - 1937/2000

     Na inauguração havia duas classes de passagem: 1a. classe composta de banco confortável, forrado de couro e de 2a. classe de banco menos confortável, por ser de madeira. Com o decorrer dos anos, por volta da década 50, acabou a divisão de classes, ficando só os assentos de madeira e anos mais tarde de plástico reforçado, situação que perdura até a presente data.

 

ÔNIBUS

VIAÇÃO SANTOS DUMONT

Rio Illustrado – 1937

A viação Santos Dumont foi uma empresa de auto- ônibus que por muitos anos atendeu a população de Irajá, Penha, Vaz Lobo, Madureira e adjacências. Funcionava na rua das Mangueiras nº 25 em Vaz Lobo – telefone nº 29-8396. Possuía uma frota de doze [12] carros considerados elegantes, confortáveis, fortes, rápidos, cômodos e seguros. Rodavam em rigoroso horário e perfeita pontualidade.

O Sr. Dilermano Avila Cunha foi o proprietário da empresa, considerado um homem de visão, largo tirocínio e vocação ao ramo industrial e o Sr. Lúcio Gonçalves Reis foi o encarregado do serviço de tráfego e de outras funções na empresa.

O Sr. Dilermano Avila Cunha, na época, era casado com a Sra. Julia Pereira Cunha e tinha dois filhos: Renato e Edgar.

 Vocabulário

1. Auto - ônibus: ligam bairros ou seja, servem todos os bairros e subúrbios, ligando entre si.

 

Foto xerox – Rio Illustrado – 1937

Na foto vê-se a garagem da Viação "Santos Dumont" e parte do pessoal do tráfego.

 

 Foto xerox – Rio Illustrado – 1937

Ponto terminal na então Freguesia de Irajá, hoje Irajá, de uma das linhas da Empresa de Viação "Santos Dumont".

Ponto final também dos bondes elétricos bem como ponto final do bonde elétrico. 

 

Foto xerox - Rio Illustrado 1937

Ponto de Partida em Madureira dos ônibus "Santos Dumont" com destino a Irajá e Penha.

Ao fundo, ponte da estação dos trens elétricos de Madureira

  

PARTICULARIDADES

    1950/1969 – Circularam por alguns anos em Irajá:

1. Na Avenida Automóvel Clube, o ônibus "Ramos – Pavuna" de cor verde claro, da Empresa Santa Helena. Sua garagem ficava em Inhaúma. Circularam também:

2. O lotação "Irajá – IAPI da Penha", "Madureira – Irajá" "Cascadura – Irajá" e "Irajá – Candelária".

3. O ônibus – linha nº 71 – "Lapa – Irajá", inclusive à atração elétrica.

Observação:

    Foi também período de utilização do ciclismo, por todas faixas etárias, como meio de locomoção destinadas ao trabalho, compras e lazer.

* 1970/2000 – O crescimento da população e o progresso urbanístico do bairro exigiu, a longo prazo, reformulação do meio de transportes pelos mais sofisticados, culminando com interligamento direto e indireto de Irajá com inúmeros bairros, inclusive com a região fluminense do Estado.

* Segundo o consta no informe especial "Transportes – novos rumos", transcrito no jornal "O DIA" de 14/6/99, na história do transporte de passageiros, o lotação surgiu como elo de ligação entre os antigos ônibus importados da década de 50. Que em 1936, já circulavam os primeiros ônibus hidramáticos. Depois, nos anos 40, vieram os importados, como o chamado de "Gostosão", da General Motors até o início da II Guerra Mundial. Já na década de 60 apareceram, então, os ônibus elétricos que ficaram poucos anos em ação. Na década de 90, foram lançados os microônibus e os ônibus urbanos com ar refrigerado. Algumas designações eram dadas aos que viajam de lotação, tais como: "Chumbinho", ao passageiro que viajam do início ao fim da linha; "Bacuru", os veículos que trafegavam de madrugada;; "Abaixadinho", aos passageiros que viajavam no corredor do veículo.

 OBSERVAÇÃO:

    De 1970 a 2000, o crescimento da população e o progresso urbanístico do bairro, exigiu a longo prazo, reformulação do meio de transportes pelos mais sofisticados, culminando com o interligamento direto e indireto de Irajá com inúmeros bairros, inclusive com a região fluminense do Estado.

Hoje, operam inúmeras empresas de ônibus, entre os quais, a linha nº 296 – "Irajá – Praça XV", da Empresa Estrela Azul; linha nº 344 – "Marechal Hermes – Praça XV", da Empresa Madureira Candelária; linha nº 350 – "Irajá – Passeio"[ parador – rápido], da Empresa Rubanil; linha nº 351 – "Vaz Lobo – Irajá", da Empresa Rubanil; linha nº 625 – "Irajá – Méier", da Empresa Rubanil; linhas nºs. 687 e 688 – "Pavuna – Méier", da Empresa Pavunense; linha 711 – "Rocha Miranda – Rio Comprido", da Empresa Estrela [trafega pela rua Marambaia]; linha nº 712 – "Cascadura – Irajá", e via "Amarelinho", da Empresa Três Amigos; linha nº 774 – "Madureira – Jardim América", da Empresa Caprichosa; linha nº 775 – "Vigário Geral – Madureira", da Empresa Caprichosa; linha nº 910 – "Madureira – Bananal", da Empresa Paranapuã; linha nº 918 – "Bonsucesso – Bangú", da Empresa Jabour; linha nº 919 – "Penha- - Rocha Miranda", da Empresa Morsa; linha nº 940 – "Ramos – Madureira", da Empresa Caprichosa; linha 942 – "Penha – Pavuna", da Empresa Erig; e linha 960 – "Senador Camará – Bonsucesso", da Empresa Andorinha.

Das linhas fluminenses, cita-se: linha 560L. – "Caxias – Méier" e linha nº 561L. – "Caxias – Jacarepaguá", ambas da Empresa Vera Cruz; linha 596L. – "Nova Iguaçu – Penha", da Empresa Flores e a linha nº 728L. "Bonsucesso – Nova Aurora, da Empresa Vera Cruz.

Até a presente, trafegam na área os ônibus chamados de "frescão" , táxi de empresa e particular, Kombi e vans [lotada].

No 1997, sugiram os microônibus, tais como: "Vista Alegre – Shopping – Vicente de Carvalho", das Empresas "Caprichosa" e "Madureira Candelária"; Linha nº 296 – "Irajá – Del Castilho", da Empresa Estrela Azul, operando até a presente.

Fontes Consultadas:

* Rio Illustrado – 1977 , cortesia da Sra. Norma Zangrando Pereira.

* Memórias do autor.

* Memórias do Escritor Carlos Alberto Taborda [+]

* Memórias do Sr. Hugo Salomão.

* Memórias do Sr. Alberto A. Sacramento.

* Memórias da Sra. Arlete Rodrigues de Farias.

* Jornal "O DIA" de 14/6/99 – Informe Especial.

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